2041 - Coolaborativismo

outubro 14th, 2008

1º capítulo - o Postulado

2º capítulo - Medo

O chefe de Arnold Banks, Mustafa James Sayid, é filho de árabes e americanos. Muito mais jovem que o próprio Banks, herdou o jornal e todo o complexo de empresas da família, que envolve siderurgia, escritórios de advocacia, indústrias petrolíferas e outros negócios bélicos e obscuros, que só os advogados sabem..

Desde 2021, os árabes têm o controle de todo o oriente médio. Após anos de guerra entre o ocidente e o oriente, os Estados Unidos da América simplesmente retiraram suas tropas do deserto. Esse fato nunca foi explorado pela mídia. Um simples - “Acabou” é que saiu em todos os jornais.. E desde então, os árabes se espalharam pelo mundo todo, com status de elite global, tendo poderes e influência no Governo Global.

O Governo Global foi instaurado logo após o derretimento do sistema financeiro mundial, em 2009. Com o fim do livre mercado, os governantes dos países mais ricos naquela época compraram todos os bancos quebrados, inclusive os Bancos Centrais da maioria dos países. Os grandes se juntaram, e assim, o estado voltou a reinar no mundo, porém, agora unificado em uma só assembléia.

A moeda deixou de ser parâmetro de riqueza. Não existem mais bancos para a população. Assim como não existe mais especulação financeira. Esse termo chega a ser uma abstração pros vivos em 2041. O que rege a sociedade é a produção calculada e o consumo regrado, tudo muito bem planejado, estipulado e calculado pelo governo.

Foi a época em que o capitalismo se dissolveu, dando espaço ao coolaborativismo.

Essa derrocada dos bancos foi muito bem arquitetada, para que o controle financeiro mundial passasse, de uma vez por todas, para poucas famílias. A quebra do sistema financeiro foi uma manobra arriscada, mas que deu certo, e garantiu o sucesso do Governo Global. E mesmo para certas elites dissidentes, a idéia de governar unilateralmente o mundo foi irresistível.

E assim, com a elite governante distribuindo a riqueza digitalmente, em cartões de plástico, parecidos com os cartões de crédito do seculo XX, foi fácil organizar a sociedade em classes e garantir o futuro infinito das próximas gerações dessas famílias. Tudo isso às custas das classes mais baixas, que sustentam a infra-estrutura da vida confortável de poucos até os dias de hoje.

Porém, o Governo Global não contava com o fator “Terra-Viva”, um organismo que se auto-rege, dotado de sabedoria e experiência, capaz de varrer de sua superfície certos percalços no decorrer de sua existência. Isso não estava nos gráficos e planilhas dos técnicos altamente especializados, incapazes de analisar fatos que fogem de seus estudos, de seus focos.

A calamidade terrestre está em seus dias mais punks. E os anúncio dos cientistas é notícia em algumas rádios-pirata. Em certas rádios religiosas (também piratas), os pastores pregam o fim do mundo. “ Tá na bíblia! Tá acontecendo!” “O Senhor voltou pra arrumar essa bagunça!”

E Banks preparar sua matéria. Ele não se preocupa com o que fora noticiado por esses meios alternativos. A internet é monitorada por uma empresa de segurança vinculada ao conglomerado de Sr. Sayid. E essas rádios atingem somente a população local. O Daily News tem tiragem de 5 milhões de cópias. Uma mentira impressa 5 milhões de vezes se torna verdade. É assim faz muito tempo.

Ao terminar a matéria, Banks recebe uma ligação particular. Ele atende:

-”Alô?”

-”Filho?”

-”Oi, mãe.. to ocupado.. diga!”

-”Seu pai foi engolido pelo furacão Diógenes, que passou aqui na cidade! Nossa casa foi destruída!”

Silêncio na linha.. Banks desliga sem dizer nada.

Ele olha para os A4 impressos em sua mão, olha para a sala de seu chefe, ouve uma buzinada pela fresta da janela…

… continua…

2041 - Medo

abril 28th, 2007

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Procurando seu carro em grande estacionamento, Arnold Banks, o repórter do Daily News se desespera. São muitos carros, em muitos andares. Na pressa de chegar à coletiva, ele não anotou onde colocou seu BMW preto.

- “Humpf, agora eu queria ter um carro verde! Quer dizer, verde não! Amarelo! Aquele cientista maluco ia adorar me ver num carro verde..”

Desde 2009, poucas pessoas se interessam em ter um carro com cores vivas, e hoje, não mais se fabricam carros coloridos.

E assim, irritado, Arnold acha o seu BMW, em meio a carros brancos, pretos e pratas. Assim se resume o espectro de cores do trânsito no mundo.

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Arnold dá a partida em seu carro. Um ruído estranho, uma fumaça preta, e ele sai. Aquele carro ainda usa metanol. Metanol brasileiro. Um dos modelos antigos de 2033.

 

A notícia ainda ressoa no corpo de Banks. E mesmo assim, ele não tem a mínima preocupação com o ar. Em 2041, muitos pensam: “Isso é coisa do passado.”

Em 2007, acharam o primeiro planeta capaz de receber vida, com água líquida e atmosfera similar, 1,5 vezes o tamanho da Terra, a 20 anos luz daqui.

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Desde então, a classe dominante arquiteta uma colonização do tal planeta, apelidado de Gliese 581C.

 

A globalização é um fato consumado. A pasteurização é uma regra. Com isso em prática, se abriram muitas novas possibilidades de uso da psicologia na grande massa.

A manipulação tomou novos rumos. A “liberdade” que a democracia vendeu se transmutou completamente nos novos dias de comunicação em grande escala.

 

Onde antes, no século XX, se estudava meios para criar desejos nas pessoas, hoje se estuda como criar o medo. Essa prática vinha ocorrendo desde o final do século, mas de maneira desordenada, caótica. Nunca tinha sido, de fato, estudado.

Hoje, o medo é estudado em universidades, nas mesmas salas em que comunicólogos ensinavam as artimanhas da publicidade. E os resultados desses estudos não são empregados no mercado. Hoje se criam Jornalistas. Hoje se ensina o poder do medo.

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Arnold Banks é um desses jornalistas que estudaram o medo. O Daily News é um jornal pra pobre. Pra classe social sem conforto. O que essa classe tem é acesso à informação. Por isso, é importante para o fluxo do ‘coolaborativismo’ que essas pessoas se mantenham tenebrosas, inseguras.

Se a Terra está indo pro buraco, essa classe dos “Seres Vivos que Não Têm Dinheiro ou Dono” não pode planejar sair daqui. É algo fora de questão, mesmo entre os próprios necessitados. E nem se quisessem. Isso é coisa de para superpodero$o$.

 

E mais: Há planos de se formar uma “sociedade perfeita”, a partir do zero, nesse novo planeta. Arnold Banks é um repórter influente. Não tem muitas posses, mas tem planos e reais condições de ser incluído nessa nova elite colonizadora.

 

O carro de seu chefe aparece em seu retrovisor. Chegaram no prédio do jornal. Antes de sair do carro, Banks está nervoso. Sabe que terá que manipular a notícia, e seus dedos já coçam. A classe que sustenta a elite não pode se desviar de sua função: sustentar. Como sempre foi, em 2041 quem gira a roda é o povo. E o que a comunidade científica diz, ou deixa de dizer, não interessa ao povo.

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Bom dia, chefe.

1º capítulo - o Postulado

2º capítulo - Medo

2041 - o Postulado

março 12th, 2007

2041

Genebra, 14 de julho de 2041

- “Descobrimos!!! Descobrimos!!!”, anunciou, efusiva, a GSBW (Global Scientists for a Better World), maior comunidade científica do mundo, reunida para desvendar os maiores mistérios e problemas envolvidos na preservação do meio ambiente. Surgido no início do século XXI, esse conglomerado ganhou força junto à imprensa e à opinião pública por propor uma nova abordagem, diferente da comunidade científica tradicional, ao tratar os assuntos referentes à natureza e sua relação com o Homem. Formada por estudantes egressos e dissidentes das mais importantes universidades e institutos de pesquisa do mundo (Oxford, Berkley, MIT, Nasa…) a GSBX passou mais de duas décadas comparando e analisando fatos, resultados, estatísticas, combinando fórmulas, discutindo teses e pesquisando filósofos e pensadores das mais diversas especialidades - da matemática à psicanálise, da astronomia às artes, da biologia à metafísica.
Todo esse esforço veio a público no ano de 2026, quando a GSBW ganhou as primeiras páginas dos mais importantes jornais do Planeta ao anunciar a existência de uma força desconhecida até então, “A Força da Natureza”.

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Foi justamente nesse ano que, oficialmente, Holanda e Bélgica deixaram de fazer parte do mapa-mundi por conta do aumento excessivo do nível do oceano. Foi então que, após uma série de ‘catástrofes naturais’, finalmente a GSBW resolveu anunciar sua descoberta.

- “Descobrimos! Somos parte de algo muito maior. A raça humana, a sociedade que construímos, é uma parte infinitamente pequena de algo infinitamente grande. Não estamos, e nunca estivemos separados,” anunciou o presidente do GSBW, o francês Honoré Saint Etiènne, durante a coletiva de imprensa realizada no Nestlé Convention Center, em Genebra.

- “Sim, mas que ‘algo’ é esse? Que partes são essas?” perguntou, incrédulo, um repórter do Reino Unido.

- “Nós, os homens e a Terra. A partir de hoje, aos olhos da ciência, não somos mais partes. Temos que enxergá-los cientificamente como um todo. Somos um só”, pontuou o Dr. Saint Etiènne.

- “ E ainda assim,” lembrou o cético cientista, “este ‘Uni-Ser’ é parte de um todo muito maior, que é o Universo. O Todo. Mas isso é material de estudo para os próximos séculos…”

- ” uhhh…”, lamentou um repórter estadunidense mal-humorado. “Lá vem..”

- “E isso não é o mais importante”, complementou o diretor de pesquisa do GSBW, o paquistanês Nasrut Fattah , “Por menor que sejamos, nós humanos temos uma função importantíssima, crucial para o equilíbrio do sistema no qual estamos inseridos. E estamos fazendo tudo errado. Estamos colocando tudo em risco. Bilhões de anos de evolução estão prestes a ir para buraco.”

E ao final, postulou:

“Nós da GSBW enxergamos a Terra como o maior ser vivo que se tem notícia até hoje. A partir dessa conclusão, se faz necessário também reclassificar os seres vivos. Hoje não mais existem mais seres unicelulares e pluricelulares, por exemplo. Biologicamente, somos todos um ser, um complexo-vivo em constante mutação. A independência dessas partes reside apenas na consciência humana. E para continuarmos a viver, é necessário mudar esse enfoque. Assim como nós, a Terra é dotada de corpo, consciência, saúde e espírito. E, consequentemente, nos engloba em suas decisões.”

- “Espírito!? Ah… Isso é balela. Daquelas piadas de hippies, teoriazinhas de Gaya,” manifestou-se outro repórter, com pressa para entregar a notícia para sua redação.

- “Exatamente, meu caro…”, respondeu pacientemente o Dr. Saint Etiènne.

- “Arnold. Meu nome é Arnold.”, cortou áspero o repórter do Daily News.

Eis que, nesse momento, pediu a palavra o mais renomado cientista da mesa, o fundador e presidente honorário da GSBW, vencedor de 25 Prêmios Nobel, o israelense Ariel Aviv. Foi o suficiente para pairar um denso silêncio no salão.

- “Os hippies estavam certos, meu caro Arnold. Todas essas catástrofes dos últimos 30 anos poderiam ter sido evitadas se, por exemplo, o ‘Flower Power Way of Life’ tivesse sido levado a sério e fosse implementado no mundo”. Pequena pausa. Um silêncio ainda maior, quase insustentável, abatera aquela coletiva de imprensa.

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“ Mas não são só eles que estavam certos, meu caro Arnold,” pausadamente continuou o Dr. Aviv. “Erramos ao consumir. Ao consumir nosso intelecto a fim de satisfazer e confortar nossos instintos. Erramos ao rivalizar os povos. Erramos ao olhar para o céu e não mais formular perguntas. Erramos ao esgotar todas as fontes naturais e não pensar nos novos seres humanos que povoarão esse planeta, esse universo. Somos responsáveis pela Vida. Pela nossa vida. A Terra está fazendo a parte dela. Essas catástrofes naturais apontam para um problema muito maior. Mostram que o Planeta está enfermo e tentando, a todo custo, expulsar a bactéria. Agora, podemos assumir a função que nos cabe, de bactéria. Bactéria fundamental, que elevará o nível evolutivo do Planeta a proporções incalculáveis. Função que só cabe a nós.”
Nesse momento, uma salva de palmas por parte dos jornalistas brindou a pontuação do celebrado Dr. Aviv. Sem esboçar nenhum gesto sequer, ele aguardou pacientemente o silêncio tomar conta do salão novamente e finalizou: “Ou então, podemos continuar a ser um corpo estranho, patológico, comendo pelas beiradas, com os dentes amarelos e o bafo de pinga.”
Fim de coletiva. Os repórteres correram para as suas redações. A mídia tem algo sério em suas mãos.
… continua …44jerome.jpg