26 outubro, 2007

Trilogia sobre O Cavalo da Memória

por Gustavo Garde

A Carruagem (Agosto de 2005)

A Carruagem é o primeiro de uma série de 3 álbuns. Nesse “esboço de pseudo-ópera-rock sobre o Cavalo da Memória”, 7 faixas etéreas e experimentais narram o caminho percorrido pela humanidade desde tempos sem início até os dias atuais. O autor apóia-se na figura mítica e simbólica do Cavalo da Memória como aquele que carrega em seu bojo todas as lembranças e histórias do homem: seus caminhos, arquétipos e verdades. Austera, porém gentil, a alegoria do cavalo denuncia todo o caos gerado pelas escolhas e valores do homo sapiens.

Eis que o cavalo ganha voz e brada ao seu condutor: “De agora em diante sou eu quem guio o carro, vamos trocar de posição! Durante todos esses séculos em que te conduzi nas batalhas, em que te carreguei pelas cruzadas, em que te levei e te trouxe de volta, tu provaste pouca inteligência e egoísmo. Subjugaste teus irmãos e causaste a miséria dos povos. Aceita agora o posto de burro de carga e confia a mim essas rédeas. Te levarei aos pastos mais virgens e puros, às pradarias mais ricas e belas. Te conduzirei ao recanto sutil e redentor, onde é possível perceber todo o discernimento e amor puro do Pai.”

Essa alegoria também tem um contexto social de inversão de papéis. O cavalo que ganha voz e fala para o homem “vamos trocar de posição!”, simboliza todas as classes e “raças” de homens e bichos que se cansaram da dominação e optaram pela sublevação. Eles não estão satisfeitos com os rumos da história. A inversão de papéis entre homem e cavalo também pode ser a inversão da pirâmide social.

Sangra Love (Janeiro 2006)

Nesse segundo volume, ficou pra trás todo o jugo nocivo e não virtuoso que marca o rastro da humanidade nesse planeta. Buscando uma consciência superior, já é possível afinar o canal com o universo em expansão aritmética. Todos os pecados foram superados. Não há mais dominados e dominadores. Os déspotas não inventam novas guerras, agora colhem flores. Os nervos de aço sangram amor e já são generosos o suficiente para suportar a lascidão de toda a existência material.

Assim como A carruagem, Sangralove é um disco contemplativo e propõe uma série de reflexões. Pode ser enxergado como um disco de amor. Porém, propõe um trajeto e uma estética bem peculiares na hora de tratar o tema. Busca caminhos que contextualizem o sentido mais amplo da palavra: não é o amor de apego, o amor objetivo, o amor mundano. É, antes, um sentimento de despreendimento, uma mente que deseja o bem comum.

O homem se transformou numa espécie mais evoluída pois entendeu que faz parte de um contexto universal maior. Entendeu seu papel no cosmos, entendeu de onde vem e para onde vai. Está se desligando da carne em busca de uma consciência superior. Esse é o panorama que Sangralove busca investigar.

Além das 7 faixas autorais, apresenta uma música de Fernando Coelho, “Cobra e Sangue”, e uma releitura da canção “El Condor Pasa”, gravada originalmente por Symon & Garfunkel, que afina-se perfeitamente com o contexto e o conceito do álbum.

Ancestral (Outubro de 2007)

O álbum Ancestral é o último e definitivo capítulo da “Trilogia do Cavalo da Memória”, iniciada em 2005. É a pedra fundamental. A síntese de uma narrativa sutil, quase proverbial, em forma de estética musical. As faixas aqui apresentadas tentam traduzir de forma simples a natureza cíclica dos fenômenos humanos e naturais.

Finalmente o ser se desligou da carne e atingiu consciência plena. Se livrou da matéria e virou energia. No lugar onde está, compreende todas as coisas, o futuro e o passado. Compreende que o tempo não existe e que o ser ancestral reside nesse exato momento entre nós. Entende que o centro do universo cabe dentro do coração de cada um e percebe que todos os homens são iguais.

Quando entende a natureza, o ser ancestral entende o homem também. Ao invés de ler a vida através de fragmentos, passa a ter noção do todo. Entende que a vida é um lugar melhor que o Mito da Caverna. O álbum Ancestral marca a emancipação do ser que saiu do escuro de suas delusões e agora está frente a frente com a verdade. Ele tornou-se íntegro e religado, está em todos os lugares ao mesmo tempo.

Renato mCortez assina a produção dos três trabalhos.

Fernando Coelho participa das gravações de Sangra Love e Ancestral

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *