O Fado e o Punk
Não sei se os meus colegas de banda vão concordar comigo (creio que não), mas a música do Madredeus é bonita demais. A voz chorosa e o naipe de violões, perfeitamente irmanado com o acordeão, lamentam o eterno sebastianismo coletivo do povo que um dia já foi o mais poderoso do Ocidente.
Fado quer dizer destino. E o destino, para os portugueses, de alguma maneira, é triste. É um tipo de sentimentalismo que atravessou os oceanos, os séculos, e sedimentou-se no nosso sangue latino mestiço-brazuca-baby blue. Somos herdeiros dessa poesia lisboeta.
Isso me faz pensar que, mais do que roqueiro, a gente é músico. E, mais do que músico, a gente é poeta. Hoje em dia me sinto mais próximo do Walter Franco, do Paulo César Pinheiro, do Chico Buarque, do Rolando Boldrin, do Lô Borges… do que do Johnny Rotten.
O punk foi importante pela atitude, pela quebra de paradigmas, por propor a negação do flower power, por democratizar a música, pela simplicidade, por jogar merda no ventilador, por incomodar a Rainha da Inglaterra… mas os caras, como músicos, de uma maneira geral, eram toscos. Tocavam 3 acordes porque só sabiam aqueles 3 acordes. E isso não é demérito. Muito pelo contrário. A grande proposta do punk era ser uma merda mesmo. (Não foi à toa que os caras se auto batizaram de Johnny ROTTEN, Sid VICIOUS…).
Todavia, não vou aprofundar muito essa questão do punk agora. E também quero deixar claro que o punk não foi só os Sex Pistols. O gênero surgiu em Nova York e, só depois, chegou na Inglaterra graças ao Malcolm Mclaren, um dos maiores marqueteiros do século passado.
(Aí, neguinho vai ler o texto e comentar: “O cara canta numa banda de rock, se derrete em elogios ao Madredeus e mete o pau no Sex Pistols?!” Não é isso, minha gente… é preciso enxergar além).
Mas, voltando ao foco desse texto, meu intuito é dizer que hoje, após a curva dos meus 30 anos de idade, sinto que o rock é só uma ferramenta de trabalho para nós, Seychelles. O mais importante é o que reside por trás dessa superfície barulhenta. O mais importante é a essência das coisas, é a nossa herança portuguesa, é o sentimentalismo secular que se reinventa e inspira nossa alma dionisíaca.
Quer dizer, o Seychelles poderia expressar sua mensagem através de um livro, um filme, uma peça de teatro, um projeto arquitetônico, um fascículo de receitas vegetarianas, um desenho animado… mas a gente escolheu o rock. E o rock escolheu a gente. Pode haver graça maior do que essa?
Feliz é o cidadão que tem espaço e convicção para dizer o que sente e pensa. Ufa!
Gustavo Garde









junho 5th, 2007 at 1:48 am
Texto ótimo!
E eu queria que mais pessoas tivessem coragem de se expressar sem medo.
setembro 29th, 2007 at 3:24 am
Digital Glamour…
hey great stuff…